JUNQUEIRA FREIRE

 

 

  Luis José Junqueira Freire, o poeta que foi frade e depois abandonou a vida monástica, nasceu na Bahia, 1832, e como os demais da Era Romântica, faleceu cedo, vitimado pela tuberculose, em 1855.

 

Deixou: Inspiração do Claustro e Contradições Poéticas. As poesias destes livros e outras esparsas foram reunidas, muitos anos depois de sua morte, em Poesias Completas.

 

 

MORTE

 

(Hora de delírio)

 

Pensamento gentil de paz eterna,

Amiga morte, vem. Tu és o termo

De dois fantasmas que a existência formam,

  Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

 

Pensamento gentil de paz eterna,

Amiga morte, vem. Tu és ó nada,

Tu és ausência das emoções da vida,

Do prazer que nos custa a dor passada.

 

Pensamento gentil de paz eterna,

Amiga morte, vem - Tu és apenas

A visão mais real das que nos cercam,

Que nos extingues as visões terrenas.

 

Nunca temi tua destra,

Não sou o vulgo profano:

Nunca pensei que teu braço

Brande um punhal sobr’humano.

 

Nunca julguei-te em meus sonhos

Um esqueleto mirrado;

Nunca dei-te, pra voares,

Terrível ginete alado.

 

Nunca te dei uma foice

Dura, fina e recurvada;

Nunca chamei-te inimiga,

Ímpia, cruel, ou culpada.

 

 

Amei-te sempre: — e pertencer-te quero

Para sempre também, amiga morte.

Quero o chão, quero a terra, — esse elemento

Que não se sente dos vai-vens da sorte.

 

 

Para tua hecatombe de um segundo

Não falta alguém? — Preenche-a comigo.

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.

 

 

Miríadas de vermes lá me esperam

Para nascer de meu fermento ainda.

Para nutrir-se de meu suco impuro,

Talvez me espera uma plantinha linda.

 

 

Vermes que sobre podridões refervem,

Plantinha que à raiz meus ossos terra,

Em vós minha alma e sentimento e corpo

Irão em partes agregar-se à terra.

 

 

E depois nada mais. Já não há tempo,

Nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.

Agora o nada, — esse real tão belo

Só nas terrenas vísceras deposto.

 

 

Facho que a morte ao lumiar apaga,

Foi essa alma fatal que nos aterra,

Consciência, razão, que nos afligem,

Deram em nada ao baquear em terra.

 

 

Única idéia mais real dos homens,

Morte feliz, — eu quero-te comigo.

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.

 

 

Também desta vida à campa

Não transporto uma saudade.

Cerro meus olhos contente

Sem um ai de ansiedade

 

 

E como autômato infante

Que inda não sabe sentir,

Ao pé da morte querida

Hei de insensato sorrir.

 

 

Por minha face sinistra

Meu pranto não correrá.

Meus olhos moribundos

Terrores ninguém lerá.

 

 

Não achei na terra amores

Que merecessem os meus.

Não tenho um ente no mundo

A quem digo o meu adeus.

 

 

Não posso da vida à campa

Transportar uma saudade.

Cerro meus olhos contente

Sem um ai de ansiedade

 

 

Por isso, ó morte, eu amo-te, e não terno;

Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.

Leva-me à região da paz horrenda,

Leva-me ao nada, leva-me contigo.

 

(Poesias Completas)

 

  

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