GUILHERME DE ALMEIDA

 

 

    Eleito “príncipe dos poetas brasileiros”, após a morte de Olegário Mariano, o parnasiano de ontem talvez não imaginasse que chegaria a ser festejado poeta modernista. Guilherme de Andrade e Almeida é paulista, nascido em 1890, pertenceu à Academia Brasileira de Letras, e viu sua fama crescer desde o seu primeiro livro Nós, cheio de belíssimos sonetos.

 

  Obras: Nós; A Dança das Horas; Messidor; Livro das Horas de Sóror Dolorosa; Era uma vez; A frauta que eu perdi; Encantamento; Meu; Raça; A Flor que foi um Homem; Simplicidade; Carta à minha noiva; Poemas Es­colhidos; Você; Cartas que eu não mandei; Acaso; Cartas do Meu Amor; Tempo; Poesia Vária; O Anjo de Sal; Acalanto de Bartira; Camomeana; Pequeno Romanceiro; Toda a Poesia de Guilherme de Almeida.

Faleceu em São Paulo em 11 de julho de 1969

 

 

SONETO

 

Hoje voltas-me o rosto, se a teu lado

passo; e eu baixo os meus olhos se te avisto.

E assim fazemos, como se com isto

pudéssemos varrer nosso passado.

 

 

Passo, esquecido de te olhar — coitado!

Vais — coitada! esquecida de que existo:

como se nunca tu me houvesses visto,

como se eu sempre não te houvesse amado!

 

 

Se, às vezes sem querer, nos entrevemos;

se, quando passo, teu olhar me alcança,

se os meus olhos te alcançam, quando vais,

 

 

  ah! só Deus sabe e só nós dois sabemos! -

volta-nos sempre a pálida lembrança

daqueles tempos que não voltam mais!

 

(Nós)

 

 

   

 ESTA VIDA

   

Um sábio me dizia: “Esta existência

não vale a angústia de viver. A ciência,

se fôssemos eternos, num transporte

de desespero, inventaria a morte !

Urna célula orgânica aparece

no infinito do tempo: e vibra, e cresce,

e se desdobra, e estala num segundo...

Homem, eis o que somos neste mundo !“

Falou-me assim o sábio e eu comece a ver,

dentro da própria morte, o encanto de morrer.

 

 

Um monge me dizia: “ó mocidade,

és relâmpago, ao pé da eternidade!

Pensa: o tempo anda sempre e não repousa...

Esta vida não vale grande cousa:

— uma mulher que chora, um berço a um canto,

o riso às vezes, quase sempre o pranto...

Depois, o mundo, a luta que intimida...

Quatro círios acesos — eis a vida !”

Isto me disse o monge e eu continuei a ver

dentro da própria morte, o encanto de morrer.

 

 

Um pobre me dizia: “Para o pobre,

a vida é o pão e o andrajo vil que o cobre.

Deus ?... Eu não creio nessa fantasia!

Deus me dá fome e sede cada dia,

mas nunca me deu pão nem me deu água...

Nunca! Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa...

de andar, de porta em porta, esfarrapado...

Deu-me esta vida: um pão envenenado !”

Disse-me isto o mendigo e eu continuei a ver,

dentro da própria morte, o encanto de morrer.

 

 

Uma mulher me disse: “Vem comigo!

Fecha os olhos e sonha, meu amigo!

Sonha um lar, uma doce companheira

que queiras muito e que também te queira...

Um telhado... Um penacho de fumaça...

Cortinas muito brancas na vidraça...

Um canário que canta na gaiola...

Que linda a vida lá por dentro rola !“

     Pela primeira vez, eu comecei a ver,

     dentro da própria vida, o encanto de viver!

 

(Messidor)

 

 

 

 MORMAÇO  

 

Calor. E as ventarolas das palmeiras

e os leques das bananeiras

abanam devagar

inutilmente na luz perpendicular.

Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:

não há borboletas azuis nem rolas líricas.

 

 

Apenas as taturanas

escorrem quase líquidas

na relva que estala como um esmalte.

E longe uma última romântica

uma araponga metálica — bate

o bico de bronze na atmosfera timpânica.

 

(Toda a Poesia)  

 

 

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