GONÇALVES DIAS 

(continuação da página anterior)

 

 

 NÃO ME DEIXES

 

 

Debruçada nas águas dum regato

    A flor dizia em vão

À corrente, onde bela se mirava...

     “Ai, não me deixes, não !"

 

 

“Comigo fica ou leva-me contigo

“Dos mares á amplidão,

Límpido ou turvo, te amarei constante;

    “Mas não me deixes, não !“

 

 

 

E a corrente passava; novas águas

    Após as outras vão;

E a flor sempre a. dizer curva na fonte:

“Ai, não me deixes, não !“

 

 

E das águas que fogem incessantes

     A eterna sucessão

Dizia sempre a flor, e sempre embalde:

“Ai, não me deixes, não!”

 

 

Por fim desfalecida e a cor murchada,

    Quase a lamber o chão,

Buscava a corrente por dizer-lhe

Que a não deixasse, não.

 

 

A corrente impiedosa a flor enleia,

    Leva-a do seu torrão;

A afundar-se dizia a pobrezinha:

“Não me deixaste, não !”

 

(Segundos Cantos)

 

 

   

COMO EU TE AMO  

 

 

Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,

O orvalho numa flor, nos céus a estréia,

No largo mar a sombra de uma vela,

Que lá na extrema do horizonte assoma;

 

Como se ama o clarão da branca lua,

Da noite na mudez os sons da flauta,

As canções saudosíssimas do nauta,

Quando em mole vaivém a nau flutua;

 

Como se ama das aves o gemido,

Da noite as sombras e do dia as cores,

Um céu com luzes, um jardim com flores,

Um canto quase em lágrimas sumido;

 

Como se ama o crepúsculo da aurora,

A mansa viração que o bosque ondeia,

O sussurro da fonte que ser peia,

Uma imagem risonha e sedutora;

 

Como se ama o calor e a luz querida,

A harmonia, o frescor, os sons, os céus,

Silêncio, e cores, e perfume, e vida,

Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

 

   

Assim eu te amo, assim; mais do que podem

Dizer-te os lábios meus, — mais do que vale

Cantar a voz do trovador cansada:

O que é belo, o que é justo, santo e grande

Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,

Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.

O que espero, cobiço, almejo ou temo

De ti, só de ti pende: oh 1 nunca saibas

Com quanto amor eu te amo, e de que fonte

Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!

Esta oculta paixão, que mal suspeitas

Que não vês, não supões, nem te eu revelo,

Só pode no silêncio achar consolo,

Na dor aumento, intérprete nas lágrimas.

 

 

 

De mim não saberás como te adoro;

    Não te direi jamais,

Se te amo, e como, e a quanto extrema chega

    Esta paixão voraz.

Se andas, sou o eco dos teus passos;

    Da tua voz, se falas;

O  murmúrio, saudoso que responde

   Ao suspiro que exalas.

 

 

No odor dos teus perfumes te procuro,

    Tuas pegadas sigo;

Velo teus dias, te acompanho sempre, E não me vês contigo!

 

Oculto e ignorado me desvelo

Por ti, que me não vês;

Aliso o teu caminho, esparjo flores,

    Onde pisam teus pés.

 

Mesmo lendo estes versos, que m’inspiras,

  Não pensa em mim, dirás:

Imagina-o, se o podes, que os meus lábios

    Não to dirão jamais!

 

(Últimos Cantos)  

 

 

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